Dúvidas.

Você me disse algumas palavras, que depois de tanto tempo, soaram como um “Apesar de tudo, eu ainda lembro que você existe”, e eu respondi com poucas palavras, algo como um “eu sempre me lembrei”, mas não nessas palavras. Não foi nada como já foi um dia, não havia mão tremula, não havia medo do que dizer, ou do que não dizer, era uma nostalgia de algo que nem chegou a existir, em corpo presente, mas pra mim, sempre esteve ali, guardado em um canto escondido, tão escondido que eu escondi de mim mesma e fui vivendo, e então, meia duzia de palavras, que nada tem a ver com aquele passado, me remetem a tudo que já foi dito um dia, não é saudade, pois saudade a gente mata, era um sentimento estranho, uma nostalgia, como se eu me desse conta do tanto de coisa que eu deixei de viver, por motivos que hoje em dia, não justificam nada. Como teria sido? Teria sido algo? Ainda seria? Seria pra sempre? Não sei, nunca soube e pode ser que eu nunca saiba, o medo de arriscar nos obriga a conviver com a duvida, com o “e se…”, com o lapso de esperança de voltar a sentir aquela mão tremula ao pegar o celular e ler alguma mensagem, a falta do que responder diante a algo que é tão bonito de ser lido, que parece que nenhuma resposta seria adequada, eu gostaria de sentir isso de novo, mas as vezes isso soa como um desejo tão distante, tão irreal, tão…passado, e de todas as coisas que a gente tem a capacidade de mudar, o passado não está incluso, mas como mudar um presente, sendo que tem erros no passado que parecem irreversíveis? E se o passado estiver errado e todas essas lembranças não passem de um bloqueio que eu criei involuntariamente, que me impede de ser feliz e seguir adiante? E se eu não souber do que eu preciso? E se eu precisar do que eu não quero? E se eu querer o que eu não preciso? E se eu precisar de você? E agora, o que eu faço?

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Sinais.

Eu nunca sei sobre o que eu vou escrever, quando vejo uma página em branco, só sei que irei preenche-la, talvez parcialmente, talvez inteira, talvez até chegue a escrever uma segunda página. É mais ou menos como quando ouvimos uma música pela primeira vez, a gente gosta do que esta ouvindo, sem nem saber como vai ser o final, mas a gente quer ouvir, quer sentir a música. Costumo comparar ambas situações com relacionamentos, gostamos daquilo que temos, que estamos vivendo, sem saber como vai terminar, um romance pode durar uma estrofe, uma página ou um livro inteiro, a gente nunca sabe quando vai acabar, antes de acabar. A gente recebe os sinais, mas só os enxergamos depois do fim, assim como em músicas, a voz vai abaixando, o enredo da letra se concluindo, mas ainda assim, a gente só percebe que acabou, quando ouvimos o silêncio. Mas a diferença é que nas músicas nós temos a opção de dar repeat, de ouvirmos quantas vezes tivermos vontade, e em romances não, e o que a gente não pode viver, em corpo presente, a gente deixa por conta da imaginação, criamos roteiros, diálogos, momentos e situações que nunca vai sair de nossa cabeça, e não contamos pra ninguém. É a forma que a gente encontra de dar continuidade em algo que já acabou, mas um dia, até a imaginação se cansa de tamanha ilusão e decide não imaginar mais, e entra em colisão com o coração, que insiste em querer continuar sentindo algo, que pro nosso racional, não faz mais sentido sentir. E essa colisão fere, e por vezes, deixa cicatrizes. A verdade é que o erro é que a gente costuma achar que as pessoas tem obrigação de sentir por nós o mesmo que nós sentimos por elas, mas não se pode exigir reciprocidade de ninguém, não podemos intimar alguém a nos amar da forma que a amamos, a gente tem mania de querer restaurar o sentimento que nem de longe, é o que já foi um dia, a gente esquece que sentimentos se desgastam e que não há nada que possamos fazer pra fazer para restaurá-lo, e encarar isso, dói. E aí a gente tenta clicar no modo repeat, mas a vida não é uma música, e músicas nada mais são do que outras vidas cantadas.

Paradoxo.

Já faz um tempo, um bom tempo na verdade, que as músicas de amor não fazem sentido. Por algumas vezes, uma ou outra chegaram a fazer, mas nada que se compare ao sentido que elas já fizeram algum dia. Nos últimos meses, até mesmo anos, tudo que eu pensei que poderia chamar de amor, não foi amor, era um gostar, era o momento, e a prova disso é a facilidade que eu tive de superar, em uma ou duas semanas, um mês no máximo, aquela tristeza momentânea passava e o que ocupava o seu lugar era a mágoa, e não se guarda mágoa de amor, que por mais que dê errado, quando o amor esteve ali um dia, o máximo que a gente sente é raiva por um instante, mas passa, e esquecer um amor é muito mais difícil que esquecer de sentimentos momentâneos  e eu venho levado a minha vida com base nesses sentimentos momentâneos  Mas será por medo de sofrer? Talvez. Medo de perder? Muito.

O paradoxo da minha vida é querer que alguém sinta por mim o que eu tenho medo de sentir por alguém.

E eu não sei viver mais sem esse medo que me serve como uma muralha que bloqueia meus sentimentos antes que eles cresçam e tomem proporções na minha vida as quais eu não consiga mais controlar. Eu tenho que escolher entre viver sozinha ou quebrar essa muralha e permitir que o “gostar” vire “amar”, mas é difícil abrir o coração depois de tantos anos trancafiado. Seria justo colocá-lo em uma briga mesmo sabendo que ele está fraco e debilitado? E deixá-lo trancafiado por mais anos e continuar vivendo como se eu não precisasse da ajuda de alguém quando a vida parecer pesada demais apenas para as minhas costas, é justo? Eu não sei, até porque se eu soubesse, não estaria escrevendo isso aqui.

Mas e o que eu faço, então? Quando as músicas de amor vão voltar a fazer o sentido que eu queria que elas fizessem? E quando elas fizerem esse tal sentido, como eu vou reagir? Eu tenho medo de viver trancada, exatamente por ter medo. Me falta coragem, me empresta? Me falta amor, divide o seu comigo? Me falta tanta coisa, me completa?

Eu convenci o meu cérebro, agora preciso convencer o meu coração que eu não aguento mais ser sozinha.