Sobre tudo / sobre nada.

Eu tenho um poema pra cada lembrança.
Das lembranças que eu inventei e das que aconteceram mesmo.
Eu perdi a conta do quanto escrevi.
Por vezes, no caderno, celular, bloco de notas, notas mentais rascunhadas na memória pra algum dia aí passar a limpo.

Eu escrevo porque é o que eu aprendi a fazer.
Escrevo porque falar em voz alta é sempre mais difícil.
Escrevo porque eu sinto (eu sinto muito!)
Escrevo porque é só o que eu sei fazer.

Eu escrevo porque tem alguém pra ler.
Escrevo porque é tudo o que eu tenho nas horas que eu não tenho nada.
Escrevo porque se não fossem os escritos, eu seria menos eu.
Eu só escrevo porque não me lembro de como eram as coisas antes de eu registra-las.
Eu registro coisas por medo do esquecimento, por medo que desapareçam no tempo.
Eu escrevo histórias, algumas delas nunca nem existiram.

Eu escrevo sobre o que deveria ter existido.
Eu escrevo sobre o que se foi e deveria ter ficado.
Eu escrevo sobre sentir.
Eu escrevo sobre saudade.

Eu sinto muito por não sentir nada.
E eu minto as vezes.
Como agora. por exemplo.

A poesia é cheia de mentiras que a gente queria que fossem verdades.
E eu constantemente escrevo sobre aquilo que me falta.
E eu escrevo sobre amor, as vezes.

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O trago, o estrago.

O ano começou cheio de garrafas vazias.
De copos vazios.
Cheio de bitucas pelo chão.
Coração vazio.

Preciso dessa morfina, desse prazer que a gente compra pelas vielas, por aí.
Eu perdi o controle.
Encontrei minha válvula de escape pelas ruas, entre um trago e um gole.

Tão só.
Tão bêbada, tão chapada.
Tão vazia.
Tão por aí.

O cigarro, o trago, o estrago.
O copo, a bebida, o vazio.
A morfina, o prazer, perder, não ter.

No fone eu ouvia uma música que dizia o seguinte:

“Fumei meus bagulhos e bebi todo meu vinho.
Decidi fazer um novo começo,
Indo para a Califórnia com uma dor no meu coração.
(…) Acho que talvez eu esteja afundando
Me jogue uma corda, se eu alcançá-la a tempo
Eu te encontrarei lá em cima onde o caminho
Segue reto e pro alto”

Só queria que me alcançassem.
Mas está cada vez mais fundo.
E fundo…
E no fundo, eu afundo.

(Trecho citado retirado da música Going to California – Led Zeppelin)