Cores

Moço, abre essa janela da tua alma que nem tudo é ventania. Abre esse teu peito e faz dele moradia, e me convida pra entrar, qualquer dia.

Me escuta quando eu digo, moço, todo mundo precisa de alguém que caminhe do seu lado, você não precisa carregar sozinho todo esse fardo.

A gente se acostuma com a solidão, mas é errado. Moço, todo mundo merece ser amado, não precisa se sentir culpado.

Eu sei que a vida não é como você planejou e que os tempos estão difíceis, só não desiste de nada que sonhou.

Eu sei que não sou boa com rima, mas moço, você já reparou o quanto suas mágoas se parecem com as minhas?

Eu sei que eu não entendo nada sobre amor, mas tudo tem mais cor desde que cê chegou.

Te confesso que tenho medo dessas coisas de gostar, mas moço, quem passa por essa vida sem se machucar, passa sem amar.

Moço, a gente cansa de partidas, hora ou outra, a gente tem que ficar.

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A madrugada

Estava frio, entrei, me encostei no balcão daquela lanchonete 24h, pedi um café e um cookie.

” – Açucar o adoçante?”

” – Açucar.”

(de amarga basta a vida, pensei)

Era uma daquelas madrugadas que os poetas não dormem, estava frio, não só no clima, conclui mentalmente antes de tirar meu caderno da minha bolsa.

Fiquei na área da aberta daquela lanchonete, mesmo com frio, não me deixariam acender meu cigarro lá dentro.

Pensei em tanta coisa e ao mesmo tempo não tive nada pra escrever.

” – Moça, empresta seu isqueiro?”

Um rapaz interrompeu meu raciocínio que havia se perdido num casal sentado a minha frente. Eu tenho esse hábito de tentar interpretar as pessoas e imaginar como é a vida delas, o relacionamento, o quanto se amam, tudo na tentativa (frustrada) de entender o que se passa na minha vida.

Ele a olhava com um daqueles olhares que a gente até tem vontade de estar no lugar da pessoa, só pra que aquele olhar seja direcionado em nós, mas a individualidade do olhar de alguém depende muito mais do que se está sendo observado do que de quem observa.

Olhei de novo pro meu caderno, pro cinzeiro e pro café meio frio na mesa. Existem coisas que combinam de um jeito que a vontade que eu tinha era de não encostar em mais nada ali. Tudo combinava, era o meu combustível, meu calmante e minha companhia. O cigarro queimando, o café e o caderno.

Decidi o que eu ia escrever, olhei pro caderno, repassei minha madrugada pra’quelas linhas.

A madrugada é dos poetas, a madrugada é a poesia, e tudo que a compõe são estrofes.

São cafés frios. É um isqueiro. Um verso.

Eu nunca sei sobre o que eu vou escrever, e muitas vezes opto por escrever sobre esse dilema, sobre ideias, sobre lugares, sobre o que me levou até o momento que eu coloquei o caderno no meu colo.

Não sou nenhuma poeta, não sei rimar direito, muito menos estruturar um soneto ou um cordel, mas eu sei que poesia é mais do que estrutura, é o desabafo que a gente tem com nós mesmos. É as palavras silenciadas no travesseiro. É o que a gente escreve e não envia. É tudo que a gente vai acumulando e acumulando, e uma hora, transborda.

A poesia é tudo que a gente não consegue falar.

Percebi que o dia estava clareando, é hora dos poetas irem dormir e o mundo acordar, me levantei do sofá, peguei minhas coisas, puis na bolsa, paguei minha conta e fui pra casa.

A poesia precisa descansar.