Sob medida

Eu não sinto mais nada, e supostamente isso deveria ser algo bom, mas o vazio do nada dói também.

O “nada” é nada menos que o espaço que alguém deixou e que a gente se obriga a esvaziar, tentar arrancar as lembranças e não tem o que colocar no lugar delas. Há uns bons anos atrás eu escrevi em algum texto que o vazio ocupava espaço, e ainda ocupa.

O vazio é o espaço que a gente reservou pra alguém que no meio do caminho, decidiu que não estava confortável ali e foi embora. E a gente não soube o que fazer com aquele espaço, aí começamos a tentar enfiar outras pessoas ali, mas ninguém cabe, ninguém se encaixa, aquele espaço foi feito sob medida pra alguém que não está mais lá.

E lá era o lugar que não se pretendia esvaziar jamais, e quando isso acontece, a gente não sabe como se ajeitar num espaço que é grande demais pra se ocupar sozinha e pequeno demais pra colocar qualquer pessoa.

Então a gente sai de lá e deixa ali o vazio.

E a gente vai embora porquê sabe que o espaço vazio do lado vai doer mais do que sair dali pra sempre.

E de vez em quando, nas voltas da vida, a gente passa por ali por acaso e quase entra de novo naquele espaço sob medida pra duas pessoas, só pra sentir algo, nem que seja saudade, mas nessa hora a gente se lembra do que nos fez ir embora.

A gente foi embora porque quem estava ali foi embora antes.

E então a gente percebe que alguns espaços, depois de vazios, não podem ser preenchidos novamente.

E a gente se ajeita em outro espaço.

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Cicatriz

Não adianta dizer pra alguém “calma, vai passar”, porque a gente sabe que vai, o problema nunca é a ideia de nunca passar, e sim como que a gente vive normalmente enquanto não passa.

O mundo não para pra esperar a gente se recompor, então a gente vai, expõe a ferida as poeiras mundanas antes mesmo de cicatrizar, pode ser que infeccione e se torne algo pior, mas a gente tem que ir.

E no começo, vai doer, vai arder, mas a ferida não sara se a gente não parar cutucar.

E a gente vai cutucar a ferida sim, ou vão fazer isso por nós. Vão nos perguntar “Mas e o fulano?” e pronto, basta. Já arrancou a pele antes de cicatrizar e sangrou tudo de novo.

A saudade é uma ferida que a gente cutuca porque prefere ver sangrar do que pensar que aquilo nunca vai existir de novo. A gente prefere sofrer por expectativas que a nossa imaginação criou do que encarar o fato que acabou.

Assim como um dia começou sem a gente planejar, acabou, sem nos dar um tempo pra gente pensar em como que vamos continuar daí em diante.

Mas um dia, alguém cutuca aquela mesma ferida que ardeu quando a gente expôs pela primeira vez ao sol, e de repente, não sangra mais.

Cicatrizou.