Roteiros

Te conheci da forma que conheci a maioria das pessoas. No tumulto. No meio de tanta gente. Na catraca de uma estação de metrô.
De você eu nada sabia, de mim você nada sabia. Éramos totalmente desconhecidos.
Cada ser individual carrega cicatrizes, lembranças, saudades, problemas, segredos, medos.
A linha tênue entre a individualidade é a confiança de compartilhar com outra pessoa a sua história, de inseri-la nela, quem sabe até, como protagonista.
A gente nunca sabe quando o teatro da vida muda de cena, quando muda o cenário, os personagens, exceto pelo lapso de consciência de que aquilo que costumava estar ali se foi, e tem outra coisa, outra pessoa, em seu lugar.
Corta! Próxima cena…
Mas pera ai, ninguém me avisa quando eu devo entrar ou sair de cena, e as vezes eu fico onde não deveria e não vou aonde deveria estar.
1, 2, 3, ação!
Mas como é pra eu agir?
A vida não vem com script. Vivemos num stand-up, mas as vezes não é tão divertido assim.
Mas se houvesse scrip, e a gente não errasse nunca, como que seria possível distinguir o que deu certo do que deu errado?
O certo só pode dar certo se o errado existir em contrapartida.
A gente vive encenando um roteiro sem ensaios, com centenas de erros de gravação. A gente protagoniza a nossa história. O enredo muda, a gente sai de cena, mas a gente volta como créditos do final do filme.
Os ingressos estão esgotados, me procurem numa próxima sessão.

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Cicatrizes

Eu durmo quando uns acordam. Eu acordo depois de muita gente. Eu sonho demais, mas quase não durmo. Eu penso demais, falo de menos.
Eu desmorono em silêncio, eu escondo minhas fraquezas, eu tenho muitas delas.
Eu tenho hábitos ruins e por muitas vezes são tais hábitos ruins que me tiram de um lugar pior ainda, de mim mesma.
Deveria ser ilegal essa coisa de fazer mal a si mesmo. Deveria ser ilegal fazer mal a qualquer pessoa.
Mas a gente faz, por orgulho ou por medo que, se não fizermos, farão com a gente.
A gente engole a seco o orgulho e vomita saudade.
De tanto orgulho ferido, orgulho que não me deixou falar, a desculpa que eu não soube pedir, a saudade que eu senti e não falei, agora a ferida sou eu. E eu demoro pra cicatrizar.