Exploradores

Por muito tempo eu pensei que precisava ter alguém ao meu lado, eu acreditava que precisa de alguém ali pra me segurar quando eu caísse.

Até que me empurraram.

A mão que eu procurei pra não cair me deu o golpe final.

E eu não entendi o que eu tinha feito de errado, e por muito tempo procurei respostas, tentando aplicar a culpa em mim, o que faltou ali, onde eu deixei a desejar?

As vezes a gente se diminui demais pra caber na vida de alguém que não se diminuiria um milimetro por nós. E quando a gente expande o minúsculo espaço que nos foi concebito, somos arrancados de lá como se fôssemos descartáveis, e a gente continua se perguntando o porquê daquilo.

E a resposta pra essa e todas as perguntas anteriores chega sem pedir licença, arromba a maçaneta, empurra a porta e então finalmente entendemos que nós não fizemos nada de errado, só que a gente se diminui, se aperta ao máximo pra se encaixar em algum lugar que não nos pertence. 

Não se deve nunca se diminuir por ninguém e nem permitir que os façam por nós.

E nesse momento, que essa verdade arrebata teu coração e te faz ver que você é um universo inteiro de particularidades, de gostos, de memórias, de peculiaridades, você não se contenta em ser uma simples constelação.

Você quer ser exatamente quem você é, com todos os dramas, todas as conquitas, todos os sonhos, as qualidades e também os defeitos, e você aprende a amar esse emaranhado de sentimentos que é ser você.

Não existe nada mais gratificante do que sentir prazer em ser quem se é, e assim, poder encontrar alguém disposto a aterrizar em nós e visitar cada pedaço não explorado do universo que existe dentro de você e se deixar explorar.

 

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Telespectadora

Quando se trata de amor, eu sempre fui telespectadora de romances alheios. É como se fosse um filme ou um livro que eu vejo de fora e imagino como seria se fosse comigo. Mas nunca é.

Não me entendam mal quando eu digo isso, não sinto inveja de acompanhar de fora, eu acho é bonito, e nem achem que eu não acredito no amor por isso. Eu já me questionei diversas vezes se o amor não é uma fantasia criada por gente como eu que só vê de longe, mas uma vez eu li uma frase, que eu daria crédito ao autor se soubesse de quem é, que dizia o seguinte:

Se você tem medo de amar, você tem coragem do quê?

O mundo todos os dias faz parecer normal compartilhar ódio e limitar o amor.

Talvez eu seja a última das animadoras, talvez não seja tudo isso, mas eu quero sentir, o mundo anda com tanto ódio que espalhar amor é revolucionário, e parafraseando Amélie Poulain: São tempos difíceis para os sonhadores.

Navegar

Você me falou um dia que não estava pronto pra continuar, mas como poderia estar? Ninguém se prepara quando não se sabe o que esperar.

Quando se navega, por mais que façamos um mapa, e que tenhamos uma rota a seguir, a gentenunca sabe quando uma onda vai quebrar, pra onde o mar pode nos levar.

O barco pode afundar ou pode continuar.

A gente só tem um papel na mão, uma bússola no bolso, mas a gente vai, e vai porque, por mais incerto que o caminho seja, a gente sabe onde quer chegar, e pode ser dar em lugar nenhum, pode ser que a missão seja abortada e tenhamos que voltar pra casa, mas o maior fracasso segue sendo o daquele que não quis tentar.

Eu não te falei na época que eu também não estava pronta, e que não teria como estar, mas diferente de você, eu quis tentar.

É melhor dar errado do que não dar em nada.

Não adianta tentar esconder, fugir, fingir que tem controle, se o amor chegar, ele não vai te pedir licença, vai ultrapassar qualquer colete à prova de balas que você esteja usando. O amor não pede pra entrar, ele não te pergunta se você está pronto, por que nunca se está.

E se você conseguiu desistir sem sequer tentar, é porque o amor não chegou nem a entrar.

Amar é navegar, nada impede a onda de passar.

Me fala de você. 

Me fala de você, mas não aquilo que todo mundo saiba, me conta teus medos, divide tuas histórias, dos teus fracassos e das tuas glórias, me inclui nos teus planos, não me deixa de fora. 

Mas me fala se por acaso eu te incomodar, eu nunca sei quando devo ficar. 

Eu faço tudo devagar porque tenho medo de errar, mas nem todo mundo está disposto a esperar, mas nem tem obrigação de estar, isso não é algo a se mendigar. 

Mas, voltando à você, me fala o que lê, o que assiste na TV. 

Me fala das tuas crenças, se acredita em Deus, na teoria da evolução ou se tudo começou depois de uma explosão. Vamos discutir alguma teoria da conspiração, me fala a sua opinião, não solta a minha mão. 

Me fala de você, do que já conquistou e do que pretende conquistar, pois não existe vitória se não tiver com quem comemorar. 

Amores mundanos 

Eu nunca gostei de comédias românticas, de livros de romance e desse amor mundano. 

Eu quero conversar sobre meu livro preferido, sobre cinema, sobre tudo que nos cerca nesse universo e sobre esse universo que cada um tem dentro de si. 

Eu nunca quis ser uma estrela, eu queria visitar outras constelações. 

Eu quero músicas novas, lugares novos, quero falar dos meus planos, dos que deram errado e dos que eu ainda não tentei. 

Quero falar do mundo e comentar o que tá passando na TV, quero saber de você. 

Não me entendam mal quando eu digo que não quero amores mundanos, eu só quero um amor que me tire do chão mas que não solte a minha mão. 

Das coisas que me fazem escrever

(Texto de uns dias atrás, mas a situação a que eu escrevi não era tão diferente da atual)

Me disseram que eu levo jeito com as palavras, que eu me expresso com mais facilidade que grande parte das pessoas, sorri e agradeci, mesmo sabendo que eu só escrevo exatamente por não saber me expressar de outro jeito.
Eu não costumo ser o tipo de pessoa que não tem ninguém ao redor, que se isola, mas eu me sinto isolada a maior parte do tempo e isso mesmo cercada de pessoas, e não é por não gostar ou apreciar suas companhias, eu penas raramente me sinto no lugar que eu realmente estou em corpo presente.
Eu sou vagante, eu viajo, eu saio do lugar que eu estou, eu converso, eu dou risada, mas eu me sinto fora do ar, eu não estou ali, não de verdade.
É difícil explicar, e é por isso que eu escrevo.
Eu escrevo porque é onde eu me encontro comigo mesma
Eu escrevo porque falar alto não é tão fácil pra mim
E escrevo porque não sei lidar com sentimentos, então eu os canalizo pra um caderno, um blog pessoal, algum lugar que eu expresse tudo aquilo do jeito que “eu sei me expressar”
Eu acredito na teoria de que as pessoas relacionadas a escrita (ao menos a grande parte delas), sejam poetas renomados, escritores de internet ou de bloco de notas, escrevem pra desatar nós da garganta.
Não é e nunca foi uma questão de ego, muito menos de romantizar o cotidiano, eu escrevo porque é a única forma que eu encontrei de sobreviver nesse mundo e que o “meu mundo” sobreviva a mim.
Eu escrevo porque observo, e só quem é extremamente observador e detalhista sabe o que é reparar num tom de voz sutilmente mais rude do que de costume, e saber que não faz diferença pra ninguém ao redor, e eu preciso colocar todas essas observações em algum lugar.
E eu escrevo porque é minha forma de encarar melhor as coisas, de ver de fora e tentar ver algum sentido naquilo tudo.
E um dos principais motivos que eu escrevo é porque eu nunca me esqueço.
Eu lembro do que me falam anos depois, nas mesmas palavras que foram ditas, e eu acumulo tudo dentro de mim, coisas boas e coisas ruins. Coisas boas que eu sei que não voltam mais e coisas ruins que eu queria que existisse uma função no nosso cérebro que deletasse com um “click”, mas não acontece. E eu preciso fazer alguma coisa com esse monte de memória, e eu eternizo-as, no plano-físico, pra, mesmo que metafóricamente, as tire da minha cabeça e coloque-as em outro lugar.
Eu escrevo porque eu aprecio a solidão, não no sentido de não gostar de outras pessoas, mas de me obrigar a ser uma companhia agradável pra mim mesma e saber que eu só consigo pensar e realmente entender algo quando não há mais ninguém além de mim e uma tela/folha pra eu exorcizar os demônios de mim. E eu me sinto menos só quando escrevo.
No exato momento que escrevi tudo isso, minha companhia se resume a um CD riscado do The Doors tocando no fundo e uma xicara de café e esse amontoado de pensamentos que eu não consigo canalizar de outra forma. A solidão é uma benção e um fardo.
Eu escrevo porque eu sinto em excesso.
Eu escrevo porque é minha válvula de escape.
No fundo, o único som que me acompanha é People Are Strange, e curiosamente, um dos motivos de eu escrever é não entender as pessoas. Não digo individualmente, existe algumas pessoas que eu entendo, mas coletivamente, eu não as entendo, as pessoas continuam estranhas.
E eu não me atrevo a tentar entender, me limito a escrever sobre meus excessos e minhas faltas.
Eu escrevo sobre as coisas que me faltam, pessoas que já se foram e é a forma que eu encontrei de eternizar o efêmero: Em poesia.

Sob medida

Eu não sinto mais nada, e supostamente isso deveria ser algo bom, mas o vazio do nada dói também.

O “nada” é nada menos que o espaço que alguém deixou e que a gente se obriga a esvaziar, tentar arrancar as lembranças e não tem o que colocar no lugar delas. Há uns bons anos atrás eu escrevi em algum texto que o vazio ocupava espaço, e ainda ocupa.

O vazio é o espaço que a gente reservou pra alguém que no meio do caminho, decidiu que não estava confortável ali e foi embora. E a gente não soube o que fazer com aquele espaço, aí começamos a tentar enfiar outras pessoas ali, mas ninguém cabe, ninguém se encaixa, aquele espaço foi feito sob medida pra alguém que não está mais lá.

E lá era o lugar que não se pretendia esvaziar jamais, e quando isso acontece, a gente não sabe como se ajeitar num espaço que é grande demais pra se ocupar sozinha e pequeno demais pra colocar qualquer pessoa.

Então a gente sai de lá e deixa ali o vazio.

E a gente vai embora porquê sabe que o espaço vazio do lado vai doer mais do que sair dali pra sempre.

E de vez em quando, nas voltas da vida, a gente passa por ali por acaso e quase entra de novo naquele espaço sob medida pra duas pessoas, só pra sentir algo, nem que seja saudade, mas nessa hora a gente se lembra do que nos fez ir embora.

A gente foi embora porque quem estava ali foi embora antes.

E então a gente percebe que alguns espaços, depois de vazios, não podem ser preenchidos novamente.

E a gente se ajeita em outro espaço.